26 de janeiro de 2015

La Defense, a Manhattan "à la française"

1950! A guerra havia terminado há pouco mais de cinco anos. Muita coisa precisara ser reconstruída neste meio tempo, pois a França fora duramente bombardeada pelos Aliados no esforço de desalojar os alemães que a ocupavam. Depois de reconstruída a infra-estrutura de transporte assim como os meios de produção (fábricas etc...), chegava a hora de tratar da questão imobiliária. No caso de Paris, não obstante a grande reforma promovida urbanística e arquitetôica promovida na segunda metade do Séc. XIX, por Napoleão III e Haussman, a cidade agora enfrentava escassez de imóveis residências e boa parte dos existentes estavam em precárias condições, particularmente em termos de salubridade. Ao mesmo tempo, a população passava a crescer rapidamente, em decorrência do êxodo rural e da imigração (argelinos, vietnamitas, chineses...).
A saída imediata tentada por estímulo oficial foi a de construção de grandes conglomerados residenciais, num primeiro momento, e até mesmo de novas cidades, numa segunda etapa (mas isto é outra história). Na linha dos grandes conjuntos residenciais é que surgiram, entre outras (como Italie XIII e Front de Seinne) a iniciativa que hoje em dia se apresenta como a mais vistosa, embora combinando imóveis residenciais com, principalmente, imóveis comerciais (escritórios): o "Quartier La Defense".

Esta foto retrata Courbevoie como era originalmente. De novo apenas o pavilhão da CNIT e, no centro do rond-point a estátua La Defense

Agora não é mais, mas já foi moda pontilhar as cidades de estátuas, muitas vezes com a função de exocisar traumas. Foi assim com a estátua erguida no "rond-point" de Courbevoie, uma localidade limítrofe em relação a Paris. Com a estátua, os parisienses homenageavam os soldados que defenderam a capital francesa durante o cerco a que foi submetida pelas tropas do Kaiser durante a Guerra Franco-Alemã de 1870.
Era um caminho natural, a expansão de Paris em direção a Courbevoie e suas vizinhas Nanterre e Puteaux. Bastava estender, em direção a Courbevoi, o Eixo Histórico de Paris - que se inicia no Museu do Louvre, se projeta pela Avenue des Champs Elysèes, transpassa o Arco do Triunfo e segue, pela Avenue de La Grand Armée, até a Porte Maillot, o marco do limite oeste da cidade.
Daí por diante havia um amplo território disponível para novas construções, aproveitando os terrenos que até então eram ocupados pelos pavilhões de inúmeras indústrias em vias de desativação. A primeira construção nesta área foi o pavilhão do "Centre de Nouvelles Industries e Technologies"(CNIT), idealizado originalmente como centro de feiras e hoje predominantemente um centro comercial. Ao longo das vias já existentes em Courbevoie, um grupo de urbanistas convocado pelo governo francês projetou uma sucessão de edifícios dentro do princípio elementar estabelecido por Haussman, o da harmonia arquitetônica, fundamentado no gabarito¹ uniforme.


A primeira concepção de La Defense era bem comportada, ainda seguia os princípios de harmonia arquitetônica estabelecidos por  Haussmann para a grande reforma de Paris da segunda metade do Sec. XIX

Depois do pavilhão do CNIT, foi construído o primeiro prédio de escritórios, o da petroleira Esso; o que se configura bem sintomático pois a época era caraterizada pelo rápido crescimento da indústria automobilística e, consequentemente, pela expansão do comércio de combustíveis derivados do petróleo.
O sonho da "Manhattan à la française" sofreu, porém, seu primeiro revés justamente com a Crise do Petróleo de 1974, que, de quebra, pôs fim aos "Tente Glorieuses", as três décadas de progresso que a França vinha vivendo desde os anos 1950.

  
Ilustração que se encontra no museu Cité de l'architecture et du patrimoine situado no Palais de Chaillot no Trocadero

  
Painel que faz parte da exposição no museu Cité de l'architecture et du patrimoine

O fato de o primeiro prédio ter sido um pavilhão dedicado às "Nouvelles Industries" também deixa evidente o espírito francês da época - de modernidade, vanguardismo, pioneirismo. Afinal, a França desenvolvia sua própria pesquisa na área nuclear, tinha seus submarinos, seus mísseis, dispensara a proteção da OTAN contra a ameaça da Rússia soviética, produziram por sua conta o belo jato de passageiros Caravelle (e, logo em seguida o supersônico de passageiros Concorde), vivia a "Nouvelle Vague" no cinema, o "Nouveau Roman" na literatura e ditava nova com Chanel reabilitada.
Mas o que prejudicou mesmo "La Defense" foi a adoção dos princípios do Urbanismo Funcionalista, inspirado pelo arquiteto-urbanista Le Corbusier, como resposta à cada vez maior presença do automóvel nas cidades. Os funcionalistas entendiam que deveriam ser separados os espaços para os transeuntes e os destinados aos automóveis. Uma das saídas foi estabelecer o princípio do "urbanismo sobre laje" ("urbanisme sur dalle"). 
Note-se que, nesta maquete, a concepção já é completamente diferente. A simplicidade dos primeiros traços esta totalmente perdida  

Em http://diretodeparis.com/ladefense/ encontra-se esta descrição perfeita: "La Défense tem um nível 'superior', com escritórios, comércios, restaurantes e residências, interligados por uma imensa esplanada.  (...) Outro nível, subterrâneo, comporta a rede de circulação de automóveis e ferroviária (trens e metrô passam pelo bairro) – e vários estacionamentos". 
A "imensa esplanada" é que, na opinião de muitos, faz a diferença pior, não obstante "várias obras de arte, fontes e áreas verdes embelezam o lugar" (ibidem). O resultado, de fato, é a um ambiente opressivo no nível inferior e um aspecto frio, inóspito - um deserto de concreto - na parte superior a céu aberto (e, no inverno/primavera sopra do leste um vento frio forte e muito desagradável).
Ao longo de sua história, "La Defense" sofreu diversos percalços. Foi como um romance, onde o escritor inicia se propondo um tema a desenvolver, mas, à media que avança, personagens e situações vão tomando um rumo completamente diverso. Pode-se dizer que "La Defense", hoje em dia, está em sua terceira fase. O edifício da Esso há muito foi demolido (os europeus, de um modo geral, destroem e reconstroem prédios com uma facilidade incrível!). 
Outra maquede no sentido Paris-La Defense


A mesma maquete anterior no sentido La Defense-Paris

Na fase atual, o princípio inicialmente estabelecido de harmonia arquitetônica foi totalmente abandonado e a altura dos prédios não é só variada como totalmente ilimitada. Além disso, em que pese a proposta inicial prever que o "La Defense" fosse uma zona mista de imóveis comerciais e residenciais², a parte residencial vem sendo cada vez mais deixada de lado, dando-se preferência aos prédios de escritórios. Para construí-los, há registro até de que residentes tenham sido praticamente forçados a desocupar algumas moradias. A realidade atual praticamente não tem mais nada a ver com a concepção inicial. Observando-se as maquetes acima, nota-se que em frente ao pavilhão da CNIT havia a previsão de um prédio bem alto, para contrastar. Mas, no lugar, hoje em dia, há um enorme centro comercial, o "Le Quatre Temps" (foto a seguir), um grande shopping-center vertical, que é muito fácil de acessar, pois tem no subsolo uma estação de metrô e outra de trens para os subúrbios, mas que arquitetônicamente não tem nada de singular. 


O Le Quatre Temps

O Grande Arco


Ah! "La Grande Arche de la Défense" não constava do projeto original. Foi construído posteriormente e fez parte dos "grands travaux" do megalômano François Mitterrand. Projetado para marcar os 200 anos da Revolução Francesa, teve concepção dos arquiteto e engenheiro dinamarqueses. A idéia era fazer uma contraposição "extra-muros" ao arco do Triunfo situado no coração de Paris, pois ambos estão no mesmo alinhamento. Como marketing, como propaganda, cumpriu seu papel, mas não deixa de ser uma concepção esdrúxula. Pior é que está sofrendo graves problemas estruturais e de deterioração. O topo do arco, que abrigava órgãos públicos, está fechado por medida de segurança. Há obras de restauração, mas a utilização futura será para usos que demandem menos carga, como restaurantes.


 O artificialismo caracteriza a esplanada de La Defense, em que pese as inúmeras tentativas de torná-la menos desumanizada

Resumo da ópera
Ao fim e ao cabo, os grandes projetos fundados no conceito de funcionalismo urbano não deram certo, particularmente em decorrência do artificialismo que os caraterizou. Outros projetos que adotavam os mesmos princípios vieram a ser gradativamente abandonados, em favor de soluções menos tecnocráticas e mais humanizadas. La Defense continua, pois há todo um esforço dos seus gestores em buscar compensações e alternativas para os problemas detetados ao longo da sua existência.

Redigido em 20 de janeiro de 2015.
As ilustrações reproduzem o que se encontra no museu do Palais de Chaillot. 
Todas as fotos são do proprietário do blog.

Notas
1 - "Nome que se dá ao limite regulamentar de altura a que devem obedecer as edificações dentro de determinada área" (http://www.dicio.com.br/gabarito/)
2 - Uma das preocupações dos franceses é com a "mixité" das funções e dos próprios usuários das áreas urbanas

Mais sobre La Defense em:
http://fr.wikipedia.org/wiki/La_D%C3%A9fense

Mais sobre urbanismo da laje em:
http://fr.wikipedia.org/wiki/Urbanisme_sur_dalle


Mais sobre

Cité de l'architecture et du patrimoine


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